Portugal

Entrevista – Francisco Amiel

Atualmente joga no Sporting Clube de Portugal porém, com apenas 24 anos, já conta com uma vasta experiência e muitas histórias para contar. Dividiu a sua formação entre Portugal e os Estados Unidos, onde conquistou a Patriot League no ano passado, título que garantiu a participação no March Madness de 2019. Foi capitão e é detentor do recorde de atleta com mais jogos ao serviço dos Raiders da Universidade de Colgate. Na primeira, de uma série de entrevistas com jogadores da Liga Placard, conversamos com Francisco Amiel sobre o início da sua carreira que o levou a estrear-se aos 17 anos na Liga Portuguesa, passando pela aventura na NCAA, que culminou no ingresso na recém-criada equipa de basquetebol do Sporting.

Começando pelo princípio da tua carreira, iniciaste a tua formação no Basket Almada Clube, sendo que depois foste para o Algés onde virias a estrear-te na Liga Portuguesa de Basquetebol (LPB) ainda muito jovem. Tendo em conta esse percurso inicial, como foi para um rapaz de 17 anos dar os primeiros passos no escalão máximo do Basquetebol nacional?

FA: Fui muito bem preparado no Basket Almada Clube para, quando a altura certa chegasse, dar este salto para a nossa principal Liga. Apesar de várias oportunidades ao longo dos anos de poder ingressar noutras equipas com outro nome no basquetebol nacional, como acontece com a grande maioria de jogadores onde se veja algum tipo de potencial na formação, sempre acreditei bastante no trabalho que vinha a realizar no BAC e acredito cada vez mais que ficar no clube até essa altura foi a melhor decisão que poderia ter tomado. Além do mais, ia contando já com alguma experiência internacional através das nossas seleções jovens. Quando esse salto se deu, tive a sorte de ter um grupo de jogadores e staff que me acolheu incrivelmente bem e ajudaram-me a adaptar o mais rápido possível à exigência do desafio, sendo que nesse ano éramos uma equipa totalmente portuguesa. A oportunidade de treinar e competir diariamente, com 17 anos, com internacionais seniores como o João Santos, o Francisco Jordão, o “Tonico” ou o Rui Quintino, foi uma experiência extremamente gratificante e que foi uma espécie de “abre-olhos” para a realidade seguinte, que foi a ida para os Estados Unidos.

Depois de teres completado a tua formação em Portugal, embarcaste nessa nova aventura em solo americano. Como é que surgiu a oportunidade de ires para os EUA?

FA: Eu soube desde a altura que tinha 14/15 anos que era um desafio que queria enfrentar e nos anos seguintes agi muito em conformidade com isso. Sabia que precisava de manter uma boa média escolar para não ser um entrave no momento da escolha da universidade para onde quisesse ir e depois, obviamente, jogar na Liga e participar em Europeus de formação ajudou bastante na faceta desportiva. Nos dois anos que estive no Algés mantive contacto com alguns treinadores que me tinham contactado. Entretanto houve alguns que me vieram ver jogar a Portugal, mas a universidade de Colgate foi, curiosamente, a última equipa com quem eu falei, quando já estava a entrar em estágios da selecção para o europeu de Sub20 desse ano. As coisas aconteceram muito rápido e passadas cerca de duas semanas de termos começado a falar, eles perguntaram-me se não poderia ir passar uns dias à universidade, para me conhecerem pessoalmente, para poder visitar o campus, falar sobre o programa e em que direcção queriam ir como equipa. Com a autorização dos responsáveis, numa pausa de 3 dias da selecção, viajei com o meu pai para Nova-Iorque e tive lá cerca de dia e meio no campus. Percebi que era exatamente aquilo que queria – uma universidade de excelência académica e que se propunha a revigorar o programa de basquetebol a curto prazo. Era um programa que não ganhava há décadas e os treinadores fizeram-me realmente acreditar no plano e na maneira como esperavam reverter essa trajetória, trazer novamente uma cultura vencedora à equipa. Entretanto voltei, fiz o Europeu, e mal o acabei, fiz o meu commitment pela universidade e passado um mês já estava no campus para começar aquele que era um grande sonho de há uns anos.

Foto: Colgate Raiders

E durante os quatro anos que estiveste em Colgate, como é que foi essa experiência a nível pessoal?

FA: Foi uma experiência incrível, em muitos aspectos melhor do que poderia alguma vez ter imaginado. Em termos académicos, sobretudo, abriu-me para um mundo de interesses e conhecimentos que muito provavelmente nunca conseguiria ter tido acesso caso tomasse outra decisão. Depois é a experiência em si de se viver num campus universitário, a cerca de dez minutos a pé de todo e qualquer outro estudante da universidade. Costuma-se dizer por lá que nunca mais na vida vamos viver tão perto de tantos dos nossos melhores amigos do que durante aqueles quatros anos, e a verdade é essa mesmo. Para além disso, tive a sorte, ou azar (nem sempre é fácil perceber), de viver no estado de Nova Iorque. Por um lado, é Nova Iorque, um sítio de sonho para a maioria das pessoas visitar. Por outro lado, é Nova Iorque, um dos estados mais frios do país e onde apanhávamos seis meses seguidos de neve e, tirando um dia ou outro, sem conseguir ver o sol. Isso sim foi uma adaptação complicada para mim, assim como era para muitos outros que vinham de climas bem diferentes daquele! Para o melhor e para o pior, acho que não trocaria aquela cidade de Hamilton, NY por muitas outras no país para poder experienciar o que é realmente ser um estudante-atleta nos Estados Unidos.

Conseguiste obter alguns recordes, entre os quais o capitão com mais jogos feitos por Colgate (130) e, também disputaste a March Madness no teu último ano. Apesar de teres sido um atleta estrangeiro, como foi liderar o balneário

FA: Os recordes vão e vêm, e mais cedo ou mais tarde são batidos – é inevitável, mas não posso ser cínico e dizer que não me orgulho. É obviamente gratificante ver o meu nome ligado a um recorde individual. É o culminar de quatro anos de sacrifícios, de muitas noites e dias de dores para conseguir estar sempre presente para ajudar a equipa a atingir os objetivos, mas não é pelos recordes individuais que eu jogo basquetebol. Acredito que isso tenha sido um dos grandes motivos pelo qual fui escolhido para ser capitão no meu último ano. Na nossa equipa, o capitão é escolhido pelos jogadores. No início da época, numa de muitas reuniões que se vão tendo ao longo do ano, os treinadores dão um papel para escrevermos dois nomes e no fim, a pessoa que os jogadores tiverem escrito o nome mais vezes é o capitão, a segunda com mais votos, sub-capitão. Eu acabei por ser escolhido para capitão, algo de que me orgulhei imenso. Foi um orgulho ainda maior ainda por ser um de dois jogadores internacionais na equipa (de entre 15 nessa época), mas acima de tudo por ter tido esse voto de confiança vindo dos meus colegas. Mas com isto vem uma responsabilidade enorme e isso deixou-me um apreensivo naquele primeiro momento. Ser capitão é sempre uma grande responsabilidade, mas numa universidade, essa responsabilidade é potenciada ao máximo, devido a isso mesmo – estarmos numa universidade, sermos um grupo de jogadores entre os 18-22/23 anos, muitos a verem-se pela primeira vez fora de casa e com algum tipo de independência. Para quem já experimentou esta realidade universitária, percebe o que digo – é sem dúvida uma responsabilidade dentro do campo, mas é principalmente uma responsabilidade fora dos pavilhões. E eu tinha experienciado em primeira mão nos meus primeiros 3 anos várias situações em que capitães, como líderes da equipa, tiveram de enfrentar determinadas situações não tão fáceis de lidar. Como em tudo, houve altos e baixos, nada de muito dramático felizmente, e no fim de contas, foi um ano em que batemos praticamente todos os recordes colectivos da universidade, desde sempre – e esses é que sim, para mim realmente contam, pois permitiram-nos levantar o título de campeões de conferência e deram a consequente passagem direta ao March Madness. Aquilo que, na minha visita de há quatro anos atrás, tinha sido visto como o objetivo distante a alcançar, que para além de nós na equipa pouca gente acreditaria, visto que nos últimos vinte e poucos anos rara tinha sido a época que o programa tivesse conseguido ter mais vitórias que derrotas.

Foto: Colgate Raiders

Decidiste regressar a Portugal para integrar a equipa recém-criada do Sporting. Como surgiu esse convite e o que é que te levou a aceitar esse desafio?

FA: Eu soube pela primeira vez do interesse do Sporting quando ainda estava nos Estados Unidos. Íamos a caminho do hotel da cidade onde iríamos jogar no dia a seguir e o meu pai ligou-me a dizer que o Sporting o tinha contactado sobre a possibilidade de ingressar no projeto no ano seguinte. Nós ainda íamos bem a meio da época e, apesar de feliz pelo convite, disse que apenas iria começar a pensar sobre o meu próximo passo depois de acabar a minha carreira universitária e nunca antes disso até para evitar o que na altura pensava que se poderia tornar uma distracção. Acabou a época, voltei para Portugal depois da minha licenciatura e reuni com o Sporting que me apresentou um projecto interessante. Fundamentalmente, o que me levou a aceitar o desafio foi o facto de ser um grupo de trabalho que queria vencer desde o início e que para mim era decisivo que assim fosse. Um projecto que prometia, e promete, continuar a promover o desenvolvimento do basquetebol no nosso país. Risquei outro sonho da minha lista, que era representar o meu clube no basquetebol. Juntou-se o útil ao agradável, o timing coincidiu com a minha saída da universidade e decidi aceitar o desafio.

Aos 24 anos, já tens um percurso assinalável. Quais são os objetivos que ainda gostavas de cumprir?

FA: Tenho muitos objetivos por cumprir ainda, demasiados para enumerar. Neste momento, o meu foco é estar pronto da melhor maneira possível para a possibilidade do campeonato retomar e vencer as duas competições que ainda podem ser discutidas – a Taça de Portugal e o Campeonato. Até lá, até depois da discussão destes dois títulos, não penso em objetivos futuros que não passem por fazer cumprir estes dois.

Neste momento todos os campeonatos estão parados em Portugal devido à pandemia da Covid-19, o que também impossibilita que haja treinos de equipa. Como é que um atleta de alta competição mantém a forma durante este período?

FA: Nós, por exemplo, temos um plano que nos foi entregue pelo departamento médico do Sporting, com o objetivo de nos mantermos ativos e preparados para o possível regresso da Liga. Acredito que é importante mantermos esta ligação entre nós jogadores, da melhor maneira possível, através deste tipo de trabalho comum à distância, mas também acredito que tenhamos de ser um pouco criativos e arranjarmos maneiras de perceber o que realmente nos ajuda a conseguir manter o foco e o interesse em melhorar numa altura em que é tudo tão incerto.

Foto: FPB

Em jeito de despedida, pedimos-te para deixares uma mensagem de apoio não só aos nossos leitores, mas a todos os amantes da modalidade, acerca do momento difícil que atravessamos.

FA: Poucas palavras mais se podem dizer em relação ao momento que se atravessa, que já não se tenham ouvido. É sem dúvida um momento complicado, principalmente para as pessoas que trabalham na linha da frente e estão em constante risco de contágio. Por isso, apelo que se mantenham por casa, se não só pela saúde do próprio, pelo menos por respeito a quem põe em risco a sua vida, para que do conforto das nossas casas possamos ver a luz ao fundo do túnel. Aproveitem para ver e rever alguns dos clássicos ligados ao nosso desporto, continuem a pensar em maneiras de levar avante o panorama do nosso basquetebol – ultimamente tem havido imensas iniciativas super interessantes ao redor dos agentes da modalidade, que têm ajudado bastante na divulgação do basquetebol. Está ao alcance e depende de todos nós, sem qualquer tipo de dúvida! E no que de mim depender, estão sempre à vontade para mandar uma mensagem, falar de basket, o que quer que seja .

RESPOSTA RÁPIDA:

A Liga Placard está suspensa e mesmo sem sabermos se regressará, ou não, queremos a tua opinião sobre alguns prémios individuais desta temporada. Se fosses tu a decidir, a quem atribuirias os seguintes destaques?

MVP – Travante Williams (SCP)
6.º homem – Marc-Eddy Norelia (UDO)
Melhor defensor – João Fernandes (SCP)
Jogador que mais evoluiu – Rafael Lisboa (SLB) e Pedro Oliveira (Ovarense)
Cinco ideal da Liga – Brad Tinsley (FCP), Travante Williams (SCP), James Ellisor (SCP), “Betinho” Gomes (SLB), Malik Abu (SCP)
Cinco ideal defensivo da Liga – Montell Goodwin (CP Esgueira), Travante Williams (SCP), James Ellisor (SCP), Arnette Hallman (SLB), João Fernandes (SCP).
Rookie do “ano” – Diogo Peixe (FC Barreirense)

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